Um dia destes, ao chegar a casa, deparei-me com uma surpresa; um postalinho de um serviço de oftalmologia (assim mesmo, sem maiúsculas) de um Hospital Central, convocando-me para uma operação ao descolamento de retina que tive há mais de um ano. Por momentos, pensei que tinha viajado no tempo e que, afinal, já era Carnaval! Tivesse eu esperado e hoje seria uma urgência oftalmológica máxima ambulante, um "olho único" na designação interna.
Ainda tentei a "chance": será que não se pode transformar a "oportunidade" numa operação à catarata, que é a que preciso neste momento? Vã esperança, que a burocracia é cega, perdoem-me o trocadilho, e eu só tenho "direito" à operação de que não necessito. Assim se "limpam" listas de espera neste nosso canto à beira mar plantado.
PS: de facto, o dito serviço de oftalmologia já me tinha chamado para a operação alguns dias depois de eu ter sido realmente operado, tendo sido informado de que a operação já não era necessária; mas isso não conta, já que a "pressa" (?!?!) da altura se deveu ao factor "C".
Uma das consequências de uma operação ao descolamento de retina é a possibilidade de aparecimento de cataratas no olho afectado. No meu caso, a situação já se manifestou, pelo que vou ter mais uma operação ao olho na calha, desta vez para substituir o cristalino por uma lente artificial intra-ocular. É uma operação bem mais simples que a primeira, e com tempos de recuperação muito mais curtos. Por enquanto, a catarata ainda não é muito pronunciada, pelo que é possível programar a cirurgia para um momento mais conveniente. A leitura, que era a função mais afectada, tornou-se mais fácil com o auxílio de uns óculos de ver ao perto.
7 meses depois, o olho evolui devagar. O nível de visão ronda os 50%, mas este número não diz tudo. Existe uma distorção no campo visual que recupera muito lentamente, e que afecta a avaliação por critérios objectivos como as tabelas de Snellen (em inglês).
Grande parte da dificuldade vem de uma coisa inesperada para quem não passa por isto. Todos temos umas sombras dentro dos olhos, tipo teia de aranha, o que é normal. Com os dois olhos a funcionar devidamente, é muito raro que as teias dos dois olhos coincidam na linha de visão; assim, é muito fácil que um dos olhos compense a dificuldade temporária do outro. No meu caso, quando o olho bom fica "impedido", passo a ver só com o outro, que vê mal. Isso não é um impedimento para a condução, mas é um problema para reconhecimento de faces, leitura, trabalho de concentração visual, etc. Curiosamente, o tratamento do olho que teve o descolamento (vitrectomia - castelhano) resultou numa limpeza completa da "teia" respectiva. É no entanto, um processo invasivo que só se usa em olhos sãos para este efeito em casos muito particulares (caso de pessoas que têm apenas um olho). Assim, vou vivendo com a limitação, esperando pela altura em que o olho fique suficientemente estável para poder adaptar-me às lentes progressivas; estas irão permitir corrigir a actual assimetria de visão longe/perto e facilitar-me a vida, já que agora tenho que alternar entre ter os óculos postos ou tirá-los, de acordo com o que estou a fazer.
O que talvez não se antecipe de um problema deste tipo (descolamento de retina) é a possibilidade de um longo período de recuperação. O uso do olho afectado tem várias fases, com consequências para a vida diária. No meu caso, tem vindo a recuperar lentamente as suas capacidades: visão a 20% ao fim do primeiro mês; a 40%, ao fim do segundo. Para lá dos dados "numéricos" está a realidade: a mudança da lente dos óculos resolve parcialmente a visão ao longe; ao perto, é completamente inútil, sendo que vejo melhor sem os óculos (sou míope).
Outra questão relaciona-se com a integração cerebral das duas imagens distintas. Até ao final do segundo mês, "via" principalmente a imagem do olho bom. Actualmente, vejo uma imagem mista, ou seja, acabo por estar a ver pior, a menos que feche voluntariamente o olho afectado. Mas isso, parece-me, pode ter a consequência de manter o olho "preguiçoso", em vez de o levar a funcionar tão normalmente quanto possível. De qualquer maneira, é por vezes desesperante a imagem dupla que vejo, dificultando seriamente a leitura e o reconhecimento das pessoas. Estou sempre a avisá-las que não estranhem não as reconhecer imediatamente, não querendo passar por mal educado. Enfim, tenho que (aprender a) viver limitado nas tarefas do dia a dia. A propósito de limites, talvez seja útil indicar o que posso fazer de facto: praticamente tudo, inclusivamente conduzir, se bem que me tenha auto-limitado nessa actividade, utilizando preferencialmente os transportes públicos. Os limites à leitura e à utilização do computador são ditados pelo nível de conforto: logo que me sinta cansado, paro ou mudo de actividade.
Para mim, já é um bocadinho tarde, mas registe-se a intenção. Eu descobri, da pior maneira, a razão de uma notícia que não deveria existir num país digno desse nome. E hoje estou a pagar o "preço" em termos de tempo de recuperação. Eu fui um dos que teve sorte, apesar de tudo.
(texto integral)
Descolamento de retina é prioritário
oftalmologia
A Ordem dos Médicos (OM) recomendou que os doentes com descolamento da retina sejam operados prioritariamente, depois de ter constatado que esta primazia não estava a ser respeitada, pondo em risco a visão dos pacientes.
Segundo uma recomendação da OM, a que agência Lusa teve acesso, foi definido como "imperativo deontológico" que um descolamento da retina - a separação da retina da parte subjacente que a sustenta e que pode conduzir a perda de visão - tenha "prioridade absoluta sobre as outras cirurgias programadas", na área da oftalmologia.
O bastonário da OM, Pedro Nunes, explicou que esta recomendação surge após uma audição do Colégio de Especialidade de Oftalmologia e no seguimento de casos em que doentes com descolamento da retina não receberam a devida prioridade para uma intervenção.
A OM recomenda que, "quando a unidade de saúde não possuir pessoal ou equipamento necessário para responder com a solução terapêutica mais adequada, deve estar previamente assegurado o encaminhamento destes doentes para local adequado". Perante esta recomendação, os responsáveis pelos serviços têm de organizar-se para promover este atendimento prioritário, o que, segundo Pedro Nunes, já está a acontecer.
Descolamento de retina é prioritário
PS (10:15): ver também Movimento dos Utentes da Saúde (fazer "scroll" até ao texto intitulado "Prioridade absoluta aos descolamentos da retina, recomenda a ORDEM DOS MÉDICOS"
PS 2 (14:33): de facto, o texto referido no primeiro PS é da revista "Tempo de Medicina". Não podendo fazer uma ligação directa por razões técnicas, deixo aqui o texto integral:
Recomendação da Ordem dos Médicos sobre descolamentos de retina
«Prioridade absoluta»
A Ordem dos Médicos divulga hoje, dia 21, uma recomendação sobre as prioridades nos serviços de Oftalmologia. A Ordem defende que, ao contrário do que vinha acontecendo, os casos de descolamento de retina recentes devem ter «prioridade absoluta».
Esta recomendação foi aprovada na reunião do Conselho Nacional Executivo (CNE) do passado dia 15 de Novembro e resulta de uma proposta do Colégio de Oftalmologia sobre os casos de descolamento de retina recentes (considerados como tal aqueles que têm menos de um mês de evolução). Segundo explicou ao «TM» o bastonário, Pedro Nunes, este assunto já estava a ser investigado pela Ordem há cerca de dois meses: «Tivemos conhecimento, através da comunicação social, do caso de um doente que havia sofrido um descolamento de retina e que se queixava de ter tido de recorrer ao privado, por não poder ser operado de imediato no Serviço Nacional de Saúde. A partir daí pedi ao Colégio de Oftalmologia para averiguar se se tratava de uma caso isolado ou não. E, de facto, a investigação do Colégio concluiu que a situação era prática corrente nos serviços de Oftalmologia dos hospitais do País».
Na verdade, o que sucede é que os doentes que chegam aos estabelecimentos públicos de saúde apresentando sinais de descolamento de retina são indicados para cirurgia, mas não com carácter de urgência, o que leva a que, dada as extensas listas de espera cirúrgicas da maior parte dos hospitais portugueses, esperem, em muitos casos, mais do que o aconselhável pela intervenção.
A Ordem dos Médicos quer que esta realidade seja alterada e, por isso, «transformou» o parecer do Colégio de Oftalmologia numa recomendação, de âmbito nacional. O texto que a Ordem hoje divulga determina que seja dada «prioridade absoluta» a estes doentes, que deverão passar à frente de qualquer cirurgia programada ou não urgente. E no caso de o respectivo serviço não ter capacidade de resposta, este deve reportar o facto às autoridades competentes e o doente deve ser encaminhado para outra instituição de saúde.
Neste contexto, a Ordem propõe também que o Ministério da Saúde defina quais são os centros de referência para esta patologia. Resta saber como a tutela vai acolher esta proposta dos médicos. Pedro Nunes não esconde que gostaria de ver a recomendação convertida num dispositivo ministerial que lhe conferisse mais força.
M.F.T.
TM 1.º CADERNO de 2005.11.21
0511301C24105MF47D
Visão a 40% no olho afectado, que está suficientemente estável para poder mudar a lente dos óculos. Mas ainda vejo com flutuações devidas à intervenção, porque a retina demora muito tempo a recuperar. Daqui a dois meses vamos ver como está.
Boas notícias: a recuperação da retina está a correr muito bem.
Um alívio para as últimas três semanas de incerteza. Abria o olho de quando em vez e não sabia o que significava a imagem distorcida e desfocada que via. Com muito tempo para matar, era impossível evitar pensar nisso.
Felizmente, não fiquei deprimido, tendo para isso contribuido a atitude optimista do cirurgião que me tratou. Apesar da dificuldade da operação, ele soube muito bem "dourar a pílula", desdramatizando a questão. Não sei se a atitude do doente é relevante para a recuperação de um descolamento de retina, mas tenho a impressão que ele sabe.
Agora, tenho mais um mês para "matar", regressando à normalidade ao ritmo de recuperação da visão pelo olho doente, que agora está nos 20%.
Um bom "site" para obter informação básica (em inglês) sobre o descolamento de retina, sem excesso de linguagem técnica, é o do National Eye Institute americano:
O tempo custa a passar. As minhas actividades habituais estão fortemente limitadas, por dependerem do uso dos olhos. Um pouco de televisão, umas leituras curtas, entremeadas com longos períodos de descanso numa posição fixa, que acaba por se tornar desconfortável. Ouço muito rádio, muita música, dormito. A cabeça é que não pára.
Parece-me que a referência de ontem do Ministro da Saúde aos oftalmologistas do Hospital dos Capuchos (salvo erro) mostra que algo vai mal na organização dos serviços de oftalmologia em Hospitais Públicos. Parece-me, assim, que não é restrito ao hospital onde eu tive contacto directo com a situação. E mais não digo.
Sinais de perigo (aqui falo por experiência directa):
"Flashes" de luz, visíveis mesmo com o olho fechado (correspondem à formação do rasgão);
"Moscas" que se deslocam no campo de visão (células que se soltam e migram dentro do olho);
Aparecimento de sombra escura no olho afectado (a zona da membrana descolada, em posição inversa à real).
A operação é URGENTE. Esta é, de facto, a urgência oftalmológica por excelência - o prognóstico piora com o tempo. Não aceitar ir para uma lista de espera, mesmo que isso signifique recorrer a uma clínica privada.
Sofrer de miopia é um factor de risco. E pode acontecer sem causa aparente.
6 de Novembro de 2005
Enquanto aguardo a chamada de um hospital central para uma operação urgente, recebo de várias fontes notícias preocupantes sobre a capacidade do Serviço de Oftalmologia do dito hospital de lidar efectivamente com a minha situação. Vou esperar até amanhã, pela chamada. Em caso negativo, recorro a uma clínica privada.
7 de Novembro de 2005
Recebo, informalmente, a indicação de que só serei chamado, talvez, no final da semana. Está decicido.
8 de Novembro de 2005
A esperança volta na clínica privada. A atitude do médico, desdramatizadora, é meio caminho andado. Sou operado ao início da madrugada de quarta-feira.
9 de Novembro de 2005
Tudo correu pelo melhor, apesar da gravidade da minha situação, seriamente agravada pela espera inútil que me foi indicada pela Oftalmologia do hospital central. Agora, tenho três semanas de recuperação à minha frente, antes de saber o prognóstico definitivo. Mas o olho doente vê, mal, mas vê!
O "Ecos da Província" vai mudar, temporariamente espero, a sua orientação. O meu silêncio dos últimos tempos deve-se a um problema de visão. Vou passar a relatar a experiência pessoal que estou a viver. Serão pequenos apontamentos, sem periodicidade definida, porque dependentes de alguém que me passe para o computador o que vou confiando ao meu gravador.
4 de Novembro de 2005
Hoje, encontro-me funcionalmente cego. Devo permanecer imobilizado, numa posição que se torna desconfortável, devido a um descolamento de retina. O passar do tempo é medido pela Antena 2, a estação de música clássica. Estou literalmente, imerso num mundo de som, o que me está disponível. É uma experiência diferente, vai ser longa e vamos a ver como é que faço a minha saída.
5 de Novembro de 2005
O tempo continua a passar devagar. Já desisti de ouvir o som da televisão; é impossível de seguir sem ter a tentação de olhar. O rádio é mais fácil.
Um efeito interessante desta situação é que ouço melhor. A percepção das ideias contidas nas palavras é mais clara. Percebem-se melhor outras pistas, contidas no tom de voz, na forma de dizer. Um exercício cuja prática me parece interessante manter depois da recuperação da visão.
PS: Peço antecipadamente desculpa por não poder garantir, nesta situação, respostas aos comentários que aqui forem deixados.