fevereiro 06, 2007

A campanha vista da província

Se há alguma coisa em que esta campanha me tem surpreendido é na diferente atitude das pessoas das duas posições em confronto. De um lado, a alegria, os balões, as bandeiras agitadas. Senti-o na marcha para a Alameda em Lisboa, numa das Voltinhas do Não do distrito de Coimbra e ontem, na sessão de esclarecimento na Casa da Cultura, com Vaz Serra, Vaz Patto e Rebelo de Sousa. Do outro lado, caras fechadas e um tom pesado. Ultimamente, tivemos o exemplo de Sócrates, recém-chegado da China, comentando a proposta de suspensão de processo. Ou mesmo ontem, Rui Pereira, no Prós&Contras. De facto, confesso ter ficado surpreendido com um retrato de Rui Pereira que não esperava: a dada altura, numa argumentação mais viva, chegou a ver-se-lhe espuma nos cantos da boca!
Diferentes são também as participações: ontem, a sala reservada na Casa da Cultura foi pequena e obrigou a mudança para outra maior. Esta, mesmo assim, encheu, com muitas pessoas de pé, outras sentadas no palco, e outras, cá fora no átrio, por falta de lugar. Contraste-se isto com as reportagens da campanha do sim, onde nem se mostra o público pelas óbvias razões de não ser uma imagem mobilizadora. Recentemente, numa reportagem sobre os médicos pelo sim, tive a nítida sensação que não havia ninguém na sala. As quatro pessoas intervenientes estavam todas a falar para a câmara.
Já nem falo na clara participação da imprensa em geral na campanha do sim, que só aparece na campanha do não quando algum peso-pesado mediático está envolvido. Critérios (ou a falta deles)!
Aliás, esta última observação recorda-me uma intervenção de um jornalista catalão num dos seminários da "Magna Charta Universitatum", que diz a dada altura o seguinte:

[...]
We lie because we are in a system that is so sophisticated that nothing seems to be what it is. Lies seem to be truths and we do not have the resources to tell what is what. We are designed to mirror what we see, but not to distinguish between human flesh and spiritual air. We think we are good when we limit ourselves to repeating what the opinion leaders say to us. We reproduce a given reality hoping the citizens will be able to understand things for themselves. We defer the responsibility of comprehending what is going on around us to the citizens.
[...]

Pois é! Depois, admiram-se que a imprensa escrita perca leitores.

Mas o importante não é isso. É esta sensação de encantamento que deriva da constatação da participação de tantos cidadãos anónimos que, longe dos holofotes, no dia a dia, vão usando o seu tempo para discutir com os colegas, distribuir folhetos, colar cartazes e participar nas mil e uma actividades que são propostas por esse país fora. Sem organização formal, sem partidos. A sociedade (ou, pelo menos, parte dela) a funcionar como deveria e pondo alma e alegria nisso. Até por isso vale a pena!

Publicado por ecos em fevereiro 6, 2007 09:05 AM | Citações
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