O que talvez não se antecipe de um problema deste tipo (descolamento de retina) é a possibilidade de um longo período de recuperação. O uso do olho afectado tem várias fases, com consequências para a vida diária. No meu caso, tem vindo a recuperar lentamente as suas capacidades: visão a 20% ao fim do primeiro mês; a 40%, ao fim do segundo. Para lá dos dados "numéricos" está a realidade: a mudança da lente dos óculos resolve parcialmente a visão ao longe; ao perto, é completamente inútil, sendo que vejo melhor sem os óculos (sou míope).
Outra questão relaciona-se com a integração cerebral das duas imagens distintas. Até ao final do segundo mês, "via" principalmente a imagem do olho bom. Actualmente, vejo uma imagem mista, ou seja, acabo por estar a ver pior, a menos que feche voluntariamente o olho afectado. Mas isso, parece-me, pode ter a consequência de manter o olho "preguiçoso", em vez de o levar a funcionar tão normalmente quanto possível. De qualquer maneira, é por vezes desesperante a imagem dupla que vejo, dificultando seriamente a leitura e o reconhecimento das pessoas. Estou sempre a avisá-las que não estranhem não as reconhecer imediatamente, não querendo passar por mal educado. Enfim, tenho que (aprender a) viver limitado nas tarefas do dia a dia. A propósito de limites, talvez seja útil indicar o que posso fazer de facto: praticamente tudo, inclusivamente conduzir, se bem que me tenha auto-limitado nessa actividade, utilizando preferencialmente os transportes públicos. Os limites à leitura e à utilização do computador são ditados pelo nível de conforto: logo que me sinta cansado, paro ou mudo de actividade.