Este fim de semana acordei com uma sensação estranha. A luz do dia tinha uma cor diferente. O horizonte estava ocupado por uma densa névoa, que cobria, qual superfície frontal, uma extensão deveras impressionante. Dei um passeio matinal com o cheiro de madeira queimada no ar. As notícias da uma confirmaram o facto adivinhável: um enorme incêndio entre Mortágua e Anadia, tocado por um vento diabólico.
Terão, esse incêndio e as suas consequências, afectado a minha percepção? Não sei. E este é o facto mais revelador de todos. A indiferença. A menos que nos toque directamente, passa-nos ao lado.
Essa é uma imagem que se aplica ao resto das nossas vidas. No clima de anestesia geral em que vivemos, muito nos passa ao lado. A nossa intervenção cívica, o nosso sentimento de solidariedade, ficam relegados para melhor ocasião por um sentimento de apatia que nos ameaça a todos. Olhamos os políticos, os seus exemplos, e somos de imediato atingidos pelo desencorajamento. As causas (as verdadeiras, não as do próprio bolso) são razão para muito poucos. Já não faltará muito para que as manifestações tenham dias marcados pelo Governo Civil, para juntar os poucos de cada causa e reduzir as dificuldades que possam causar ao trânsito, a exemplo do que se faz na Holanda.
Passo a vista pelos jornais e nada me afecta: o preço do petróleo, o número dos desempregados, os mortos da última bomba no Iraque. Fica apenas o fumo cinzento e distante de um incêndio que não me aquece.