Um bom "site" para obter informação básica (em inglês) sobre o descolamento de retina, sem excesso de linguagem técnica, é o do National Eye Institute americano:
Hoje de manhã, estamos a ser informados pela TVI de uma importante alteração geográfica das linhas férreas (que até pode vir a ser útil ao governo para o TGV). A saber, um comboio de mercadorias circulava e teve um acidente na Linha da Beira Baixa (sic), quando se deslocava entre Vilar Formoso e Coimbra. Naturalmente, os habitantes de Vila Franca das Naves estão surpreendidos com as consequências do acidente, por terem mudado de distrito durante esta noite.
O tempo custa a passar. As minhas actividades habituais estão fortemente limitadas, por dependerem do uso dos olhos. Um pouco de televisão, umas leituras curtas, entremeadas com longos períodos de descanso numa posição fixa, que acaba por se tornar desconfortável. Ouço muito rádio, muita música, dormito. A cabeça é que não pára.
Parece-me que a referência de ontem do Ministro da Saúde aos oftalmologistas do Hospital dos Capuchos (salvo erro) mostra que algo vai mal na organização dos serviços de oftalmologia em Hospitais Públicos. Parece-me, assim, que não é restrito ao hospital onde eu tive contacto directo com a situação. E mais não digo.
Sinais de perigo (aqui falo por experiência directa):
"Flashes" de luz, visíveis mesmo com o olho fechado (correspondem à formação do rasgão);
"Moscas" que se deslocam no campo de visão (células que se soltam e migram dentro do olho);
Aparecimento de sombra escura no olho afectado (a zona da membrana descolada, em posição inversa à real).
A operação é URGENTE. Esta é, de facto, a urgência oftalmológica por excelência - o prognóstico piora com o tempo. Não aceitar ir para uma lista de espera, mesmo que isso signifique recorrer a uma clínica privada.
Sofrer de miopia é um factor de risco. E pode acontecer sem causa aparente.
Hoje, estou em espírito com ABCaldeira (Do Portugal Profundo). É o dia da leitura da sentença.
PS: Absolvição! Parabéns, ABCaldeira.
6 de Novembro de 2005
Enquanto aguardo a chamada de um hospital central para uma operação urgente, recebo de várias fontes notícias preocupantes sobre a capacidade do Serviço de Oftalmologia do dito hospital de lidar efectivamente com a minha situação. Vou esperar até amanhã, pela chamada. Em caso negativo, recorro a uma clínica privada.
7 de Novembro de 2005
Recebo, informalmente, a indicação de que só serei chamado, talvez, no final da semana. Está decicido.
8 de Novembro de 2005
A esperança volta na clínica privada. A atitude do médico, desdramatizadora, é meio caminho andado. Sou operado ao início da madrugada de quarta-feira.
9 de Novembro de 2005
Tudo correu pelo melhor, apesar da gravidade da minha situação, seriamente agravada pela espera inútil que me foi indicada pela Oftalmologia do hospital central. Agora, tenho três semanas de recuperação à minha frente, antes de saber o prognóstico definitivo. Mas o olho doente vê, mal, mas vê!
O "Ecos da Província" vai mudar, temporariamente espero, a sua orientação. O meu silêncio dos últimos tempos deve-se a um problema de visão. Vou passar a relatar a experiência pessoal que estou a viver. Serão pequenos apontamentos, sem periodicidade definida, porque dependentes de alguém que me passe para o computador o que vou confiando ao meu gravador.
4 de Novembro de 2005
Hoje, encontro-me funcionalmente cego. Devo permanecer imobilizado, numa posição que se torna desconfortável, devido a um descolamento de retina. O passar do tempo é medido pela Antena 2, a estação de música clássica. Estou literalmente, imerso num mundo de som, o que me está disponível. É uma experiência diferente, vai ser longa e vamos a ver como é que faço a minha saída.
5 de Novembro de 2005
O tempo continua a passar devagar. Já desisti de ouvir o som da televisão; é impossível de seguir sem ter a tentação de olhar. O rádio é mais fácil.
Um efeito interessante desta situação é que ouço melhor. A percepção das ideias contidas nas palavras é mais clara. Percebem-se melhor outras pistas, contidas no tom de voz, na forma de dizer. Um exercício cuja prática me parece interessante manter depois da recuperação da visão.
PS: Peço antecipadamente desculpa por não poder garantir, nesta situação, respostas aos comentários que aqui forem deixados.
Aborto: confusões e diferenças (só acessível por assinatura electrónica)
As notícias recentes e repetidas sobre a pressa do Ministério da Saúde (confortado com uma resolução parlamentar da antiga maioria PSD/CDS, a que oportunamente foram feitas muitas reservas) em possibilitar a clinicas privadas a realização de abortos e sobre a instalação em Portugal de estabelecimentos idênticos por iniciativa de organizações internacionais, sempre divulgadas em páginas e por jornalistas, habitualmente utilizados como canais de comunicação das posições favoraveis à liberalização da "IVG", vem trazer um rasto de confusão a um debate que merecia ser claro, sereno e plural.
Não se pode assim deixar de deplorar a mistura que é feita entre um debate referendário (quanto a nós tão incapaz de responder ao problema como o seria qualquer liberalização por iniciativa parlamentar) e as questões resultantes do cumprimento estrito e formal da lei de 1984. Esta última lei não pode nem deve ser manipulada (como acontece com lei semelhante em Espanha) como instrumento de obtenção do aborto livre até às dez semanas. Pense-se o que se pensar da mesma, o que neste momento pouco importa quando o debate tem por objecto a proposta do aborto "a pedido", configurado como direito oponível e exigível ao sistema de saúde.
Mas a confusão é tal que não se percebe já sequer se os futuros proponentes da resposta "sim", num referendo sobre a descriminalização do aborto até às dez semanas, ainda continuam a considerar o aborto um acto penalizante do ponto de vista fisico e psíquico para a mulher que o pratica, ou se, pelo contrário, é seu desejo que o mesmo seja amplamente possível. A proposta recente, pelo PCP, da introdução, em Portugal, da pílula abortiva clássica (o RU-486) parece indicar ser esta a opção tomada.
Sendo consensual entre todas as partes deste debate que o crime de aborto deve ser punido (sendo que a diferença entre ambos se centra no momento a partir do qual tal deve acontecer: desde o início ou a partir da 11.ª semana) e por isso não só que a lei penal tem uma faceta preventiva, como deve ser cumprida, a diferença entre os proponentes do "não" e os do "sim" parece reduzida a três questões.
A primeira consiste na diferença entre os momentos em que a vida humana, em Portugal, deve merecer tutela e protecção juridica (por muito "jeito" que dê para o debate, a lei penal não é para enviar gente para a prisão, mas para defender pessoas e valores consensualmente aceites numa sociedade). A segunda na resignação perante as circunstâncias pessoais e sociais, que faz com que para uns o aborto nunca seja a solução (e daí a vasta obra social nascida da posição vencedora no último referendo) e para outros a indiferença e a impotência constituam respostas suficientes. A terceira em que para uns ainda falta muito para conhecer totalmente o assunto (também esse foi o entendimento da Assembleia nas últimas legislaturas, expresso na decisão da realização de um estudo completo e exaustivo sobre números e causas), enquanto para outros a afirmação ideológica e de poder será mais importante que as vidas concretas em jogo.
Por isso nos parece que o debate sobre o aborto não precisa de referendos, mas de seriedade e clareza. Precisa também de iniciativa política e legislativa (protecção do embrião humano, apoio a quem precisa, políticas favoráveis à família). Precisa muito de liberdade de expressão (a comunicação social praticamente só veicula as posições de um dos lados e confunde o "não" com os partidos de centro-direita). Precisa sobretudo que se perceba, olhando para os Centros de Apoio à Vida, que dizer que o aborto não é uma solução não é um discurso, mas uma experiência. Para reconhecê-la não é preciso mais que olhá-la. Associação Juntos pela Vida
(Texto integral; Público, 2 de Novembro de 2005, secção de opinião)