Do ministro da saúde, a brilhante noção que o problema mais importante da dita que deve ser cometido às clínicas privadas é o dos abortos que os hospitais públicos não estarão a fazer ... (terá, antes, lavado as mãos?)
Do primeiro-ministro, as brilhantes contas de sumir com o calendário e a lei para convocar um referendo sobre o aborto à pressa ... (não terá esta alma mais nada que fazer em prol do país senão dar "show"?)
Deixem-se de gozar com o povo! Já não há pachorra!
O actual governo não pára de dar tiros no pé. Entre a célebre história da reforma milionária de um Ministro das Finanças que sabe que vai pedir sacrifícios e a rectificação da rectificação, estamos bem aviados. É melhor nem falar noutros ministérios ...
Wim Duisenberg, no telejornal da noite da RTP1, sobre algumas das (dúbias) medidas apresentadas por Campos e Cunha em Bruxelas para o combate ao défice (em tradução livre):
"... o combate à fraude, que será, em qualquer circunstância, um objectivo; o aumento de eficiência da máquina fiscal, que será, em qualquer circunstância, um objectivo ..."
Simples observações, mortais observações ...
5000 visitas depois de ter iniciado o blogue, é tempo de fazer uma avaliação do que o mesmo significa para mim. É, definitivamente, um espaço de intervenção. Mesmo com a difusão limitada que tem, mesmo que seja um pretexto para deixar escapar alguma pressão acumulada por um dia a dia monótono, mesmo pela oportunidade de causticar a arrogância tonta de certa imprensa, é e será um espaço de intervenção. Nem sempre me mantenho fiel a uma periodicidade desejada para fidelizar um eventual público, mas isso não é um problema para quem utiliza RSS ou ATOM.
A capacidade de intervenção é um dever de cidadania; obriga-me a não ficar indiferente a muito do que se passa à minha volta, a não aceitar de olhos fechados a versão mais ou menos oficial da opinião tida por maioritária (ou maioritariamente desejada por grupos de interesse). Nesse sentido, os blogues em geral alteraram o panorama informativo: cada vez menos haverá uma só fonte de informação sobre um determinado assunto. Claro que esse exercício exige uma capacidade de análise muito razoável, mas, também porque essa capacidade se adquire por treino, penso que é importante permanecer.
Também mantenho o espaço pela memória que constitui, pelo registo de algo que se passou em certo momento e que causou uma reacção da minha parte. Recorda-me esses momentos, ao mesmo tempo que permite a comparação com o momento presente. É um registo pessoal, nesse sentido próximo do diário, do qual não quero prescindir.
Uma das consequências mais sérias dos referendos ao chamado Tratado Constitucional Europeu é o assumir do divórcio existente entre o povo e as classes dirigentes. Esse divórcio, já real em muitos casos a nível nacional, transfere-se agora para a Europa. Nada será como dantes. As "favas contadas" mudaram definitivamente.
O absurdo da diferença nas percentagens de voto entre parlamentos e referendos reais não espanta quem dirige. Adquiriu-se a "certeza" da possibilidade de manipulação das vontades individuais e nem as sondagens contrárias, insistentes, levam ao arrepio do caminho traçado. O autismo impera, esse sim, verdadeiro factor de desagregação da construção europeia.
As declarações de muitos políticos espelham esta realidade de forma cristalina. Não há forma de o modesto cidadão escapar a esta realidade: andaram a "comer-lhe as papas na cabeça". Agora, os políticos, aturdidos, confrontam-se com a realidade e traçam cenários catastrofistas. Não aprenderam as lições da História. Tudo querem no imediato, sem cuidarem que se aproximaram perigosamente duma certa quinta Orwelliana.
O que não está previsto é sempre desagradável. Força a sair do comodismo habitual de quem está habituado a que tudo corra sobre rodas; da descoberta súbita de que, afinal, são apenas um grupo pequeno, de elite, cuja opinião não vinga. E que muitos mais olhos observarão, de agora em diante, com uma atenção redobrada.
António Barreto, no Público de hoje:
[...]
Uma votação europeia constitui uma oportunidade para os cidadãos votarem ao mesmo tempo por razões nacionais e europeias. O que traduz o estatuto híbrido da União. Não é possível votar a favor ou contra uma qualquer "coisa" europeia sem que tal seja personificado ou tome corpo em pessoa, partido, decisão ou política nacionais. Quem votou "não", fê-lo por um conjunto de razões nacionais e europeias. Tal, aliás, como quem votou "sim". Diante do "défice democrático", agora absolutamente esquecido pelos defensores da Constituição, e com absurdas "eleições europeias" sem significado nem consequências, os cidadãos votam nestes referendos por todas as razões imagináveis. Mas, no essencial, votam por uma Gestalt, uma impressão de conjunto, uma ideia global, um vulto e um sentimento geral, não por uma razão singular e concreta. E votam também por desconfiança da elite política, tanto europeia como nacional, que é, aliás, a mesma.
[...]
Uma cimeira de rastos (necessária assinatura electrónica)
Ver a sondagem na primeira página do Expresso desta semana.
Do MNE. Na Europa. Uma verdadeira primadona!
Chamo a atenção para um excelente texto de Mário Pinto no Público, de que deixo, seguidamente, um excerto:
[...]
5. Por isso, tenho de fazer uma declaração de voto muito enérgica, relativamente às anunciadas medidas anti-crise. Apesar do meu grande apreço pessoal pela competência e pela idoneidade do ministro das Finanças, o perfil da estratégia governativa já esboçada não quer mudar o nosso paradigma social, político e constitucional. Ora, se não mudarmos a nossa maneira de viver, moral, social e política, se não melhorarmos as nossas instituições, se não reformarmos o nosso Estado Social e a nossa Administração Pública, poderemos razoavelmente esperar que mudem as respectivas consequências? Claro que não. Se, mais uma vez, nos limitarmos a apertar o cinto, logo que o cinto folgue um bocadinho voltaremos aos mesmos excessos e ineficiências, porque as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Com a agravante de nos tornarmos crónicos. E as doenças crónicas não têm cura.
Os ricos que paguem a crise (necessária assinatura electrónica; secção Espaço Público)
Foi só esperar pelo telejornal da SIC, espreitado no intervalo do belo jogo entre Portugal e a Eslováquia, para ver que o trabalho sobre o gene da mosca do vinagre (ver entrada anterior) tinha que ser ilustrado, exclusivamente, com imagens de casamentos "gay". Ele há coisas tão previsíveis!
Abre um modesto cidadão o jornal diário (na sua versão electrónica) e é imediatamente atingido por um título sonante:
"Comportamento sexual pode ser controlado por um único gene"*.
Vai-se a ver e estamos a tratar da mosca do vinagre, o que não impede o articulista (ou quem lhe forneceu a notícia) de acrescentar: "Descoberta pode explicar orientação sexual nos humanos". O texto continua, brilhantemente, com outra afirmação lapidar: "A mosca em causa é um dos modelos da biologia e tem um genoma muito semelhante ao do ser humano." Esta asserção dá um novo sentido à expressão "gostava de ser mosca para ...", uma espécie de selo científico de qualidade!
Admirável mundo novo este em que as simplificações e as explicações abrangentes se distribuem, democraticamente, por todas as áreas do conhecimento, em nome da fama imediata e/ou do destaque efémero. Que isso leve a justificar, no extremo, uma responsabilidade diminuida ou nula por actos que são fruto do nosso livre arbítrio, parece coisa de somenos neste contexto.
*da parte de acesso livre do Público
Das sandes de antigamente.
Por qualquer razão, enquanto preparava uma para mim, recordei-me de assistir à preparação de outra num estabelecimento de comes e bebes de aldeia, vulgo taberna, sendo eu menino de cidade. Pão de segunda, rústico, aberto prestamente com faca artesanal de cabo de madeira pela dona. Queijo cortado em pequenas lascas, com a mesma faca, bem aproveitado, sem preocupações de espessura, a forrar bem forrado o fundo da sandes. Sem comentários sobre quantidade ou percentagem de gordura, que a senhora não admitia discussões sobre a matéria. E que bem que soube a quem tinha andado mais do que o que estava habituado pelos campos da Beira Alta.
Quão diferente do pão civilizado e anémico de hoje em dia, das fatias de queijo pré-cortadas e insonsas, ou de sandes pré-embaladas sem qualquer pilhéria. Ah! O progresso!