Que sociedade queremos? Ou, alternativamente: Como queremos viver em sociedade?
De facto, todos os dias decidimos as respostas às perguntas acima, mesmo que o façamos por omissão. Outros decidirão por nós. Até que algo nos toque, na consciência ou no bolso, e aí a reacção poderá já ser tardia. Para aproveitar a "moda" actual de citar José Gil, é mais um aspecto da "não inscrição" dos portugueses.
O DN tráz, hoje, uma reflexão de Manuel Monteiro que sublinha alguns assuntos que vamos deixando passar, na voragem quotidiana da (i)relevãncia informativa que não discutimos:
Não podemos continuar a ignorar
Um interessante artigo sobre as razões sociológicas que poderão levar os portugueses a fugir ao pagamento dos impostos:
A irracionalidade de pagar impostos
Podia aproveitar-me do blogue para fazer um rol infindável de queixas de uma determinada empresa de serviço público. Podia enumerar as múltiplas ocasiões em que a mesma empresa me irrita pela incompetência demonstrada. Podia, também, mencionar a sensação de ser uma cobaia utilizada pela dita empresa para corrigir os seus serviços à custa do cliente. Mas não o faria duma forma elegante, como a utilizada pelo leitor do Público cuja carta foi publicada hoje:
De vez em quando, a comunicação social de referência lá deixa equilibrar a balança, dando voz ao "outro lado". Desta vez, deixou passar um artigo de opinião de Pinheiro Torres sobre o aborto. A não perder.
Por um referendo diário sobre o aborto
De volta do interregno Pascal, dou "de caras" com uma excelente reflexão de Mário Pinto. As duas partes que a constituem têm destinatários distintos: uma delas é uma interpelação indirecta ao cidadão que todos somos; o segundo, uma interpelação directa ao cristão que habita muitos de nós.
Qual a ligação entre as duas partes? Cabe a cada um de nós descobrir o seu papel particular de intervenção na sociedade, mais ou menos humilde, mas sempre indispensável.
Estratégia de Lisboa, estratégia de Páscoa
Um texto que, como o referido na entrada anterior, pode levar a uma reflexão que desperte a consciência é o de Graça Franco, hoje, no Público, sobre as pessoas invisíveis:
Quando leio certos textos, não posso deixar de ficar impressionado com a distãncia que vai do desejável ao existente. Digo desejável porque as propostas que são feitas não são associáveis a um "pedir a lua". São possíveis e estão ao alcance da mão. Basta vontade política, já que a enumeração daria um bom plano de governo na área. Basta entender que essas correcções terão consequências a longo prazo muito mais importantes para a sociedade portuguesa do que as muitas medidas avulsas a que nos vamos habituando, cedendo à anestesia geral do "não há nada a fazer".
Um artigo imprescindível nesta mudança de guarda é o de Pacheco Pereira, hoje, no Público. Concordo substancialmente, até porque as muitas "gaffes" da aventura de Santana Lopes têm que ter consequências. Uma delas será certamente uma escrutinação mais atenta do tratamento do governo pelos meios de comunicação social.
A afirmação implícita no título desta entrada tem duas faces: a assunção dessa condição pela pessoa, conhecendo os seus direitos e os seus deveres; o reconhecimento pelas instituições que lidam com as pessoas dessa condição.
Qual a ligação entre as duas faces? Pensando um pouco, é óbvio que as instituições são orientadas por pessoas. Sendo estas cidadãos de corpo inteiro, parece razoável concluir que será de seu interesse, por coerência, tratar as pessoas que se dirigem às instituições da mesma maneira. Por que será que este raciocínio, tão claro, é desmentido continuamente na vida prática?
Uma outra visão da questão pode ser encontrada em: "Choque cultural".
Um artigo de opinião de Helena Matos, que deve suscitar a reflexão de todos. Porque há ideias insidiosas que, lenta mas inexoravelmente, vão anestesiando a nossa consciência até a transformar numa coisa informe e estranha denominada "politicamente correcto".
O Público de hoje tráz o último artigo de opinião de ASSilva como "professor universitário". É um excelente artigo, intitulado Sartre e depois, cuja leitura recomendo vivamente. Deixo aqui um excerto que me pareceu mais marcante:
[...] Os intelectuais de que necessitamos são gente situada, nem são neutros, nem assépticos. O que pensam e dizem, pensam-no e dizem-no em circunstâncias precisas e a partir das visões do mundo em que se reconhecem. Não são portadores de verdade, nem gozam de estatuto especial. Não são condutores de massas, conselheiros de príncipes ou iluminadores de leigos. Não são adornos dos poderes constituídos ou a constituir. São apenas sujeitos como os outros, condicionados como os outros, que podem e devem intervir mobilizando os valores e os princípios que a história dos seus campos profissionais e académicos foi acumulando.
[...]
O dia que passou a marcar a possibilidade de acontecer um atentado terrorista mesmo à nossa porta. Como disse há um ano, outros atentados, noutros locais, não causam esta reacção. Mas adiante!
Este é um dia importante para as famílias dos atingidos. Silêncio e reflexão são as atitudes adequadas à data.
O Público de hoje inclui um artigo de opinião de ASSilva , com o título em epígrafe. É um artigo interessante pelo enumerar de aspectos da sociedade portuguesa que são lamentáveis e que, efectivamente, devem ser objecto de uma aplicação particular de esforços por parte do Estado e de muitas organizações envolvidas na mudança social. Já é menos interessante na sugestão de linhas de acção concreta, onde se revela particularmente omisso, apesar do novo papel que o autor vai assumir a breve prazo. Não posso também deixar de dizer que me fica, no final, um sentimento de que o autor cai por vezes na mesma pecha que cola à sociedade portuguesa (ver frase final).
Esta última semana não deve ter sido a melhor altura para este exercício. É pena.
Um artigo de opinião de PStrecht sobre o assunto em epígrafe publicado hoje no Público, lembra-nos uma realidade que, apesar de ter deixado de ser notícia corrente, nem por isso deixa de existir. É um daqueles casos de longe dos olhos, perto do coração, marca de uma sociedade que se quer evoluida porque o é e não porque, por causas geográficas, pertence a uma Europa do Primeiro Mundo.