Hoje tive um início de manhã diferente. Cheguei cedo a Coimbra e resolvi abandonar o autocarro mais cedo, na zona da Câmara Municipal. Aproveitei para atravessar o Mercado Municipal e para me deixar envolver na actividade matinal dos vendedores, um bulício muito característico num ambiente carregado de cheiros típicos, que vão variando de acordo com os artigos predominantes para venda: os legumes, o pão, a carne e o peixe. Depois, um passeio no exterior até à Alta, apreciando aqueles pormenores que todos julgamos conhecer, mas que perdemos quando não caminhamos sem pressas ou quando passamos nalgum veículo. Sente-se o pulsar da cidade, a variação do ruído citadino entre o final da Avenida Sá da Bandeira e a protecção do acesso à Alta. Na zona da Faculdade de Psicologia dou por mim a reparar nos ouriços abertos no chão, apercebendo-me do imponente castanheiro que ali pontifica. As folhas já mostram os primeiros tons de Outono, que condizem com o ar fresco desta manhã enevoada. Fico fascinado por momentos pelo casario que se estende em frente. Chegado à Alta universitária, tenho que interromper os meus devaneios, chamado à terra pelas prosaicas intenções que me marcaram hoje esse destino.
Certas questões, por envolverem aspectos que mexem muito connosco, produzem sempre debates apaixonados. Muitas vezes, os argumentos dão mais voz à emoção do que à razão. Quando isso acontece, é vulgar recorrer aos ataques "ad hominem" ou à diabolização dos oponentes. Estes nunca têm razões válidas, apenas interesses mesquinhos. Os autores, pelo contrário, estão com a razão toda e escrevem no quase espanto de poder haver opiniões diversas.
Vem isto a propósito do artigo de opinião de Fátima Bonifácio no Público de hoje sobre o aborto (Intolerável!).
Na entrada anterior, teorizei sobre a qualidade de informação que é publicada nos "media", também ligada a influências mais ou menos encobertas que retiram valor à informação. Esqueci-me de um detalhe, de que é exemplo o artigo Desenvolvimento Científico e Dinâmica de Inovação - a Propósito do Choque Tecnológico. Nos meus tempos de estudante chamava-se "palha".
A qualidade da informação que obtemos todos os dias através da comunicação social é constantemente posta em causa pelas atitudes de muitos dos seus agentes, tanto de forma directa, como por acção de grupos de interesses que influenciam os referidos agentes. Como resultado, existe uma descrença generalizada no que vai saindo por esses jornais, rádios e têvês. Por isso me surpreendeu o artigo de Ricardo Dias Felner no Público de hoje, um jornalista que também se queixa desse "ruido" comunicacional que ofusca o papel dos media e lhes retira utilidade, ao mesmo tempo que elogia a postura de alguém que faz parte do grupo das figuras públicas (A Simplicidade de Silva Lopes).
Fiquei sem perceber onde queria chegar António Barreto (O Mistério da Casa Pia). Por esta ordem de ideias, devo poder descansadamente assaltar um banco, já que deverá ser a pistola a condenada a pena de prisão.
No Público de hoje. Uma entrevista com um comentador político sírio sobre os desafios que se colocam aos países muçulmanos e, também, ao Ocidente ("Não Podemos Pedir ao Mundo Respeito Enquanto Mantemos Perante Ele Uma Atitude de Ódio").
Inspirado por uma entrada de João Vacas no Quinto dos Impérios, cuja leitura recomendo (NOVA DIREITA?), não posso deixar de achar estranha a conjugação de um liberalismo exarcebado em matérias éticas e morais com o apelo constante ao cumprimento de obrigações cívicas, desde o pagar de impostos à circulação rodoviária. Para mim, existe uma ligação óbvia entre as duas situações.
Porque é uma preocupação de todos e está para além da baixa política e de interesses individuais. Uma reflexão de Helena Matos, no Público (As Nossas Queridas Madrassas).
Pacheco Pereira, no Público, dá-nos hoje uma revisão da importância dos blogues na sociedade e do seu papel na comunicação social (Media-esfera, Blogosfera e Atmosfera).
É um trabalho solitário mas, sete meses volvidos, não me arrependo da experiência.
Sendo presumíveis herdeiros dos antigos diários escritos, não necessariamente feitos para serem lidos e comentados, os blogues são mais do que isso. São um registo de estados de alma, de acontecimentos marcantes, de dias bons e de dias maus. Há neles silêncios e gritos, permanência e evolução, abertura e recusa, exposição e timidez. Um mundo. E hoje são mantidos vivos por muitos que nunca teriam escrito um diário clássico. Surpresas de um mundo electrónico e virtual, onde também surgem amizades sinceras e encontros de gente que parece ter-se conhecido de uma vida.
De Mário Pinto, no Público de hoje (Em Vez do Amor, o Aborto). Coisas esquecidas no ruído dos "media". A terceira parte da crónica é essencial.
Palavras de Rebecca Gomperts:
Realmente, não se podia usar esse dinheiro de melhor maneira! E sem misturar os direitos humanos na conversa!
Para quem, como eu, já observou a separação cultural e física de muçulmanos em várias cidades holandesas, e já seguiu medidas tomadas pelo Governo Holandês para remediar o problema, sem sucesso, a leitura da crónica de Ralf Dahrendorf no Público de hoje faz imenso sentido (Para Além da Assimilação).
É o título de um artigo da opinião de Alexandra Teté, Vice-presidente da Associação Mulheres em Acção, no Expresso deste sábado. A não perder.
"Contra Ventos e Marés" (é necessária assinatura electrónica).
"Tot ziens, mevrouw Gomperts". Vá e não volte.
Para quem estiver com vontade de "desabafar" com "as meninas nas ondas" na sua própria língua (por escrito, as regras de pronúncia não são fáceis de explicar de forma resumida; por exemplo, "Borndiep" diz-se "Borndip").
Em holandês, os insultos tomam a forma particular de se "mandarem" as pessoas apanhar as mais variadas doenças. Podem escolher qual em "Krijg de vinkentering!". Não é preciso saber holandês, já que os nomes holandeses de algumas doenças são facilmente reconhecíveis.
Como o classificaria, "mevrouw" Gomperts: acto médico ou terrorista?
O desespero é mau conselheiro.
Qual é, neste momento, o maior problema de "mevrouw" Gomperts e companhia (vulgo "meninas nas ondas")? O precedente.
Chamo a atenção para dois artigos de António Barreto no Público:
(A Esquerda Enganou-se - I (Grandes Esperanças));
(A Esquerda Enganou-se - II (A Grande Ilusão)).
Através de uma referência feita no "Sexo dos Anjos" cheguei ao "Dano Colateral". Estive a ler com atenção os textos do autor, que usa longas argumentações, organizadas para demonstrar o seu ponto de vista. Infelizmente, não permite comentários, pelo que me remeto a fazê-los aqui.
Chamaram-me a atenção duas posições do autor na sua argumentação. A primeira relaciona-se com aproximação feita entre aborto natural e provocado. Cito:
[...] Muitas vezes é a própria natureza que se encarrega desse destino. Os abortos naturais não serão imorais pelo simples facto de serem naturais, mas dão que pensar. Mais não fosse pelo facto de haver quem seja contra o aborto por absurdamente o julgar contranatural. [...]
(in: O problema do aborto)
Partindo deste ponto, é fácil ao autor julgar imorais todos problemas sociais que se ligam a esta problemática. Serão sempre mais imorais que o aborto terapêutico. Curiosamente, o autor declara-se contra o aborto, declarando que essa não seria a sua opção. Resta saber porque acha que o que não é bom para si, o é para outros.
Uma segunda posição polémica é a seguinte:
[...] Posso agarrar numa imagem de uma cidade completamente destruída, com corpos carbonizados, outros tantos despedaçados; trata-se de uma imagem de puro terror, crueldade e miséria. Posso agarrar nessa imagem, mostrá-la aos meus alunos e dizer: vejam bem como o mundo é horrível. Porém, se depois lhes for explicado que se trata de imagens de Hiroshima, imagens dessa manhã hedionda que permitiu pôr cobro a uma guerra ainda mais nefasta, se calhar os critérios de avaliação do horror dessa imagem tornam-se diferentes. [...]
(in: Sem título)
Ou seja, a imoralidade das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki é relativa, já que contribuiu para o final da 2ª Guerra Mundial, uma imoralidade ainda maior. Uma perfeita aplicação do princípio de que os fins justificam os meios.
No fundo, os dois casos são uma demonstração da aplicação do relativismo ao processo argumentativo. Sendo tudo relativo, tudo é justificável porque não há princípios básicos a respeitar: apenas um julgamento casuístico das circunstâncias favoráveis à posição que defendemos. Poder-se-á argumentar que, ao retirar as citações do contexto, estou a ser deliberadamente injusto com o autor; escolho a luz que considero mais favorável à minha própria posição. Aceito antecipadamente a crítica. Mas a escolha que fiz das citações tem apenas como objectivo mostrar que, para mim, os textos circundantes dependem delas. Se forem retiradas, os textos não fazem sentido.
Se fui injusto na minha apreciação, a minha caixa de comentários está aberta.
(ver também a entrada do "Sexo dos Anjos" Lições do abismo, referente ao mesmo assunto)
PS (19:00): depois da publicação da entrada, apareceu mais uma de relevo no Sexo dos Anjos; também me dei conta de que a polémica anda viva já há uns dias no Letras com Garfos, começando na entrada Danos Colaterais ou a Morte de Inocentes.
A estreia da ameaça de perseguição na Justiça de um colaborador de um blogue português por um jornalista (enfim, uma "prenda" de aniversário como deve ser...).
Aproveito para enviar os meus parabéns (atrasados) à Grande Loja do Quejo Limiano por ocasião do primeiro aniversário. Que contem muitos.
Estive a ler, espantado, o artigo do Público que refere a posição do Governo Holandês sobre o barco do aborto (Governo Holandês Recusa-se a Intervir Oficialmente na Questão do Barco). Então não querem lá ver que a verdadeira posição oficial é a transmitida pela organização das meninas das ondas, que até são como que tradutoras oficiais, chegando ao ponto de por em causa um despacho da Agência France Press. Será que, no Público, a confirmação das notícias e das fontes passou a ser feita desta maneira? Bem vai alguma imprensa diária portuguesa!
O caso do "Barco do Aborto" - Holanda concorda com proibição portuguesa. As coisas que vêm nos "sites" de alguns jornais!
BARCO DO ABORTO - Holanda considera legítima proibição imposta por Portugal. As coisas que vêm nos "sites" de algumas rádios!