No meio da cacofonia informativa e dos argumentos mal cozinhados de um lado e de outro (por exemplo, fui surpreendido pelo "alinhamento" de Vital Moreira neste jogo: o artigo de opinião do hoje no Público é patético na sua linguagem condicionada, a funcionar como argumento), existem bons exemplos de textos que, sem fugirem ao tema do momento, olham para mais longe e nos suscitam reflexões para além do imediato. Refiro-me aos artigos de Teresa de Sousa, António Barreto e Eduardo Lourenço, respectivamente:
Populismo de Sistema
A Derrota da Europa
Senhor Europa
[...]
It is widely asserted that the rate of social change we are experiencing is unprecedented, that metamorphoses and hybridizations across lines of time, of sexuality, of race, are now occurring more quickly than ever before. Does this rate and universality of change reflect verifiable organic transformations? This is a very difficult question to pose accurately, let alone to answer. We "undergo" much of reality, sharply filtered and pre-sensed, through the instant diagnostic sociology of the mass media. No previous society has mirrored itself with such profuse fascination. At present, models and mythologies of fact, quite often astute and seemingly comprehensive, are offered at bewildering short intervals. This rapidity and "metadepth" of explanation may be obscuring the distinction between what is a matter of fashion, of surface coloration, and what occurs at the internal levels of a psychological or social system. What we know of the evolutionary time-scale makes it highly improbable that psychophysiological changes are happening in a dramatic, observable rhythm. To take an example: far-reaching correlations are being drawn between a revolution in sexual mores and the presumed lowering in the age of menstruation. It would appear that this phenomenology is susceptible of exact statistical inquiry. But, in fact, material and methodological doubts abound. What cultures or communities are affected, and how many cases within them would constitute a critical mass? Are we dealing with primary or secondary symptoms, with a physiological change or one in the context of awareness and social acceptance? Granted the fact, is the correlation legitimate, or are parallel but essentially dissociated mechanisms at work? Skepticism is in order.
[...]
(Em In Bluebeard's Castle. Somes Notes Towards the Redefinition of Culture, Gerge Steiner, 1971)
No meio da confusão que têm sido os últimos dias, da informação e contra-informação que circula sem controle, uma coisa é segura: o País há-de sobreviver, melhor ou pior. As antevisões não são o fim do mundo, por muito que alguns rasguem as vestes.
O LIVRO DE CESÁRIO VERDE
O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL
[...]
IV
HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.
E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.
Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.
E os guardas que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!
Já, por demais, se tornou comum olhar para os meios de comunicação social como um aglomerado de interesses mesquinhos, de pessoas pequenas, cujo único objectivo é o embotamento dos sentidos do público leitor e de transmissão de influências particulares.
No entanto, os meios de comunicação também são utilizados de formas positivas. Apenas acontece que a moda actual não é essa. Aliás, o termo "moda" utilizado atrás é demonstrativo de um estado de coisas em que já nada é distinto como referência. As influências cruzadas das diferentes tendências deixam uma zona cinzenta central na qual é possível dizer tudo e não concluir nada.
Dito isto, deixo aqui dois exemplos de actuações positivas de um representante dos "media". Pode-se concordar ou não com o que está escrito, mas, nos dois casos, é matéria que merece atenção e reflexão por parte de cada um de nós, como cidadãos.
Dossier sobre a aprovação da Constituição Europeia
Para Pior Já Basta Assim (I) , por Helena Matos
Causa-me sempre surpresa ver imprensa de referência ir buscar notícias aos blogues (Europeias: Pacheco Pereira Diz Que "o Grande Perdedor da Coligação" É o PSD). Especialmente, tendo em conta que a entrada que é citada já lá está há uns dias ...
Um dos problemas com que nos deparamos na vida social actual é a necessidade de ter assunto para conversas de circunstância. Para isso usamos um conjunto de temas, que se poderão designar por PC (politicamente correctos), temas esses que não choquem o(s) outro(s) participante(s). No processo, corremos o risco de, pouco a pouco, ficarmos reduzidos culturalmente a um limitado subconjunto da diversidade possível. Como corremos o risco sermos cada vez mais iguais, perdendo a variedade de ideias que é apanágio da interacção de seres livres em sociedade.
Um sinal deste estado de coisas é dado num curto artigo do Expresso Online relativamente à frequência dos filmes (Todos iguais), mas suponho que se poderão obter dados equivalentes para os livros ou discos que estão na moda (ver, por exemplo, as listas dos mais vendidos da FNAC).
Paradoxalmente, nunca tivemos acesso a uma tão grande diversidade de meios de propagação de cultura, mesmo para quem não viva em grandes cidades. A Internet e as compras "online" podem atenuar fortemente o fosso cultural habitual.
Qual é o futuro que desejamos?
José Pacheco Pereira foi nomeado chefe da Missão Permanente de Portugal junto da UNESCO. Naturalmente, os meus parabéns.
Como consequência previsível, o Abrupto vai sofrer com a mudança.
Neste dia de eleições para o Parlamento Europeu, talvez se fale de tudo menos de Europa: de futebol, certamente, como de férias, que vêm aí, ou de exames, que é tempo deles.
No entanto, na Europa está o nosso futuro. O que a Europa vai ser também depende de nós, à nossa própria medida. É certo que não ligamos muito à nossa própria identidade nacional, excepto se tiver a ver com bola. Como, então, revelarmos interesse por essa identidade mais dúbia e distante chamada Europa? Vamos hoje votar ou vamos à praia? Parece ser uma escolha fácil e sem espinhas.
Um contributo notável, mas denso de significado, para esta problemática é o de Fernando Gil na revista Actual do Expresso desta semana (A Europa e o diálogo entre as culturas (assinatura necessária)). Um pequeno excerto:
[...] A Europa vive dias estranhos, que nunca antes conheceu, e perante os quais se descobre desamparada, «sem hábitos». Historicamente, o seu declínio relativo - hoje face aos Estados Unidos, amanhã face à Ásia também - faz com que ela possa cessar de representar, ou esteja já em vias disso, um horizonte de verdadeiras expectativas para populações menos desenvolvidas: e não sabe como sair deste beco. Parece, às vezes, que a única coisa que ainda se lhe pede - a actualidade mais imediata é disso prova eloquente - é caucionar valores «bárbaros», a fim de preservar a sua sobrevivência. O seu envelhecimento fomenta um niilismo: ela deixa de dialogar, ela aquiesce em silêncio e faz deste silêncio um dom da sua cultura. [...]
Quantos de nós não teremos conflitos éticos no trabalho, na estrada, nas nossas actividades diárias? Muitos dos nossos actos levantam questões éticas. Qual o mal de levar, do emprego, umas esferográficas para casa? O mal é não ver o mal. O risco que se corre, pelo hábito de neglicenciar a questão ética nas pequenas coisas, é que se passe a outras maiores.
O problema é uma "pescadinha de rabo na boca". Nada muda se cada um de nós não mudar. E nós não queremos mudar porque não gostamos de "medalhas de cortiça". Se todos fazem, porque é que eu não me posso permitir fazer o mesmo?
As mudanças de mentalidade são um processo longo, geracional. Não acontecem numa população de um momento para o outro. São geralmente facilitadas por bons exemplos vindos das elites dominantes. São sempre dificultadas pelos maus exemplos das mesmas elites.
Recomendo a leitura do artigo de Ralf Dahrendorf, hoje, no Público, sobre esta última questão (Democracia, Responsabilidade e Honra).
Sem comentários adicionais, recomendo o artigo de Eduardo Lourenço hoje no Público (Voto Sem Europa Dentro).
Rui Moreira escreve hoje no Público um artigo que ainda mais me justifica na minha escolha por uma vida simples, longe do bulício da grande cidade, das escolhas que nos força a fazer a sofreguidão do ter. Ao invés do saber ser.
[...]
No entanto ... é certo, ele partiu
para não mais voltar.
Nada há de eterno para o homem, hóspede
de um dia neste mundo terreno,
onde nasce, vive, e por fim morre,
como tudo nasce, vive e aqui morre.
Rosalía de Castro, in Nas margens do Sar (trad. JC González)
Temos uma campanha eleitoral a decorrer. E não é uma campanha alegre, bem pelo contrário. Os partidos principais já assumiram a abstenção, pelo que não se esforçam demasiado. Os pequenos, claramente, lutam pela sobrevivência. Ao ponto de o POUS (ainda se lembram?) aproveitar a campanha para recolher assinaturas contra a lei dos partidos políticos, porque precisam de provar que têm mais de 5000 militantes. Entre trocas de insultos e debates mornos que ninguém vê, discutem-se "pontes" nas vésperas das eleições. O verão quente está quase aí, mas não na versão política. Enfim, nada de inesperado no panorama nacional.
Uma outra visão do problema é dada por Eduardo Cintra Torres, em Isto Dá Vontade de a Gente se Abster.
Há que celebrar! Desconfio que sou o visitante mais comum, mas, mesmo assim, o contador de visitas marca 1000! Apesar da hora tardia!
Uma das vantagens de viver no campo é poder sair de casa de manhã bem cedo e dar uma volta gozando intensamente a luz do novo dia e os cheiros magníficos que, àquela hora, invadem o ar. O calor é ainda adivinhado, mas não aperta. Pelo contrário, ainda se sente o fresco da noite nalguma lufada de ar. Que melhor despertar se pode desejar para o início de um dia de trabalho. Mas, que digo eu, já sentado à frente do computador? Ala, que lá fora se está muito melhor. Até logo!
Serve esta entrada apenas para chamar a atenção para um artigo do Público de hoje, intitulado Defendidas Quotas para Travar Entrada de Mulheres nos Cursos de Medicina (e caixas acesssórias). Palavras para quê? É sempre divertido olhar para os contorcionismos a que se submete a razão (ou falta dela) quando se pretende defender o indefensável.
Com a particularidade adicional de todos os comentadores médicos no artigo serem ... comentadores! Uma escolha da jornalista, que, assim, nos dá uma visão equilibrada da questão ...