Os processos recentes relativos a casos de pedofilia têm duas virtudes: não permitem ao cidadão comum ignorar o assunto, a resposta mais provável; não deixam as vítimas completamente isoladas, pela contribuição que a exposição pública pode ter na compreensão do problema.
Todos queremos passar ao lado das situações abjectas com que deparamos, o que é uma reacção natural. Não sabemos como agir, nem queremos agir. Infelizmente, é uma atitude que contribui para o isolamento e a falta de protecção dos sujeitos. Assim como contribui para a manutenção das situações, por demissão. Temos dificuldade em lutar por causas e talvez esta causa nos pareça por demais menor. Fazemos assim escolhas, não escolhendo.
O isolamento das vítimas, menores, reforça o entorse mental que sofrem num período em que são especialmente vulneráveis por estarem em formação. Carecidos da protecção dos pais, são também socialmente abandonados, literalmente entregues aos "cuidados" dos abusadores, os únicos que por eles demonstram verdadeiro interesse. O beco social em que se encontram leva-os a decisões diárias, casuísticas, cujo sentido aponta obrigatoriamente para um adulto que o é em idade física, mas que falhou parte substancial da sua infância a lutar pela vida da única maneira que lhe foi possível.
Conseguimos ficar calados, continuando a passar ao largo, sabendo que a nossa atitude pode contribuir para o afunilamento de mais vidas?
Ver também o artigo de PStrecht no Público de hoje: A necessidade de consolo (secção Espaço público; necessária assinatura electrónica)
Publicado por ecos em maio 12, 2005 07:06 AM