Independentemente de todas as simpatias ou antipatias que nos gerarão os actuais protagonistas do momento político, a questão de fundo que está por detrás é diferente. O que permite que homens "light", sem um projecto consistente, vivendo da ilusão dos media, encabecem os principais partidos tem a ver com a falta de projecto global da sociedade portuguesa. E, por consequência, com a falta de projectos definidos por parte dos partidos.
Com alguma coincidência com o pensamento de José Gil, Eduardo Lourenço explora hoje, no Público, a componente cultural da esquerda portuguesa ao longo dos últimos trinta anos:
[...]
Recentemente, um dos mais brilhantes cronistas da sua geração, Pedro Mexia, congratulou-se com a emergência de uma nova cultura de Direita, capaz de quebrar o monopólio que ele atribui, tomando o todo pela parte, à cultura de Esquerda. O seu diagnóstico é certeiro, se subtrairmos a essa virtual da cultura de esquerda quase tudo o que nela relevaria de uma cultura realmente inspirada num socialismo democrático. Não é que não exista, mas, pela natureza das coisas, incodificável como a liberdade mesma que a inspira, essa outra prática cultural não tem, nem podia ter, expressão coral tão típica da cultura representativa do PCP. Infelizmente, também não tem outra que consiga impor, de maneira relevante, na cena portuguesa, essa paixão da liberdade que devia demarcá-la de maneira criadora do laço fatal de uma Cultura como serva da Política ou por ela fascinada, e não sua inspiradora e, sobretudo, crítica. [...]
Intelectuais, Democracia e Socialismo
Publicado por ecos em fevereiro 18, 2005 07:32 AMBelo artigo de ELourenço - e bela entrada de JSNovo. :o)
Do ensaio de Lourenço retive especialmente o final:
"Acontece, todavia, que a Cultura não é o lugar de revelação alguma, é apenas o lugar onde todas as revelações são examinadas e discutidas sem fim. Para que cada um de nós possa viver dessa discussão infinita do mundo e de si mesmo."
Ora aqui está algo que muito pouca gente compreende!
Afixado por: DK em fevereiro 18, 2005 12:29 PMDe facto, DK, todo o último parágrafo é precioso no que concerne a mensagens. Se o texto fosse um soneto, seria a chave de ouro.
Estava a ter alguma dificuldade com o conceito de inscrição referido por José Gil. A leitura deste texto fez-me compreendê-lo um pouco melhor.