janeiro 11, 2005

"Farpas", 2004

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Não há debate político: nem sequer na televisão que cria um espaço artificial, com regras predeterminadas, que limitam a espontaneidade das intervenções, o acaso, e a participação desse "fora" [*] que faz toda a riqueza da expressão pública. Nos jornais e na rádio, os debates confinam-se a trocas de opiniões e argumentos entre homens políticos, sempre de um partido, visto que no mundo da política não há lugar para independentes, ou entre comentadores, pretensos "opinion makers" que dialgam constantemente entre si, em círculo fechado. Muitos dos políticos são também comentadores, fazem o discurso e o metadiscurso, o que suscita um círculo abafador e redudante: sempre as mesmas vozes e a mesma escrita nos mesmos tons, com os mesmos argumentos, com o mesmo plano de sentido, como se as ideias políticas se reduzissem a um empirismo sociológico de estratégias partidárias.
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José Gil, 2004, Portugal, hoje. O Medo de Existir, Relógio D'Água, pp. 25-26.

[*] "fora" é usado no sentido de "exterior", não de plural de forum; chamo a atenção porque cometi esse erro.

Publicado por ecos em janeiro 11, 2005 01:43 PM
Comentários

Excelente livro para se compreender o Portugal que temos hoje - e o que podemos (devemos) fazer para tentar mudá-lo, dentro das nossas modestas possibilidades... Também vale a pena ler o texto que António Guerreiro escreveu, a propósito, no Expresso há umas semanas atrás. Na sequência da afirmação de JGil de que Portugal é hoje o país da "não-inscrição", diz AGuerreiro: [Portugal é um país em] “que nada acontece na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico”. Isto é: tudo é atraído para uma espécie de “sombra branca”, antes de produzir qualquer efeito sobre o real. O “nada acontece” significa que os efeitos são rasurados e tudo se dispersa numa matéria inerte. (…) a não-inscrição, tal como ela é aqui definida, é muito mais do que um problema de memória. É uma inércia que faz com que nada produza impacto, que remete para uma espécie de anestesia a recepção de obras literárias, artísticas ou de pensamento. Tudo vai parar ao mesmo buraco, ao mesmo plano de invisibilidade, sem aceder ao nível da consciência, da reelaboração, da discussão.” Sobre a ausência de um verdadeiro espaço público e a sua substituição por um simulacro: “ (…) simulacro que é o espaço mediático, hipertrofiado, reproduzindo caricaturalmente a ausência de debate, de troca livre de ideias. (…) o fechamento do nosso espaço público retira efectualidade à cultura e reduz, em todos os domínios da socialização, o espaço crítico. (…) Portugal é uma sociedade normalizada, onde o horizonte dos possíveis é extremamente pobre, e onde a prática democrática encontra resistências ao aprofundamento.”
Food for thought, sem dúvida!

Afixado por: DK em janeiro 11, 2005 06:11 PM