É Natal...
Nasceu uma criança
e com ela o sonho feito vida
de qualquer pai, o desejo de ser
e de ter com ela um espelho
de um mundo melhor.
Quando nasce uma criança
há sempre uma ternura
que flutua, um cheio que paira no ar
a luz de uma manhã coada
quando, depois da noite, dois corpos
acordam de uma noite de amor.
Quando nasce uma criança
o dicionário dos pais muda
há novas letras a correr, a dançar
de uma forma nunca vista,
palavras inscritas em páginas até aí
deixadas em branco por um mundo
feito tão de esperança como de medo,
tão vestido de morte como de vida,
respirando tanto ódio como destilando paz.
Quando nasce uma criança
o tempo pára e, sobre ela,
uma estrela indica o caminho
ou muitos caminhos para quem a ama
e a quer visitar com a doçura de uma prenda
ou o calor de um abafo.
Quando nasce uma criança
do escuro brotam cores, formas
e qualquer canto que seja
merece respeito, afecto, toda a atenção
esquecida pelos gumes da vida,
os espinhos, os cantos que enganam
e fazem da existência de tantos
uma só expressão, solidão.
Quando nasce uma criança
é Natal e com ela todas as outras crianças
são recordadas, assim, de uma só vez
bem como aqueles de quem o mundo
esqueceu ou fez frágeis,
ou que esperaram sozinhos
por um momento de afago
ou ainda, pelos que calados vieram
e assim ficaram, até ao dia,
porque nisso, há sempre um dia,
em que, de longe, alguém veio
para dizer presente e lhes deixar
aos pés, a oferta de um reconhecimento.
O Natal é, por fim, em cada dia,
a falta que faz quem gostamos
ou os enfeites que devíamos pôr na vida
as boas surpresas que temos de abrir
sempre que alguém as mostra
no mais banal gesto de dia-a-dia,
coisas tão bonitas como uma flor
o desenho do filho trazido da escola,
a música que agora aqui passa,
o correr da água,
tu,
ou alguém a dizer "eu amo-te".
O Natal é o eterno bebé que espera,
envolto em todo o carinho
(e o seu sorriso não mente),
que alguém o olhe e lhe diga
"vem comigo, és meu."
Por isso, o Natal é, enfim
a força imensa que alguém pode ter
quando ao olhar para o seu filho,
afinal, a eterna criança
(a de agora, a de antes, a do futuro),
adormecer em encanto depois de dizer
"eu não te esquecerei jamais."
(PStrecht, no Público)
Publicado por ecos em dezembro 23, 2004 10:48 AMMerry Christmas, Mr. Novo. :)
Afixado por: DK em dezembro 23, 2004 02:00 PMA entrada de hoje foi uma opção pensada, até para escapar à vertigem das notícias deprimentes que inundam os "media" de referência. Desta maneira, declaro greve por um dia às notícias do costume.
Afixado por: JSNovo em dezembro 23, 2004 08:52 PMUm Santo Natal para si e para os seus.
Afixado por: pedro guedes em dezembro 24, 2004 06:17 PM