Apesar do seu tom, a roçar o apocalíptico, a análise de ABarreto que o Público hoje nos revela (Prazos e Processos) refere um problema que a república não quer (ou não sabe) resolver: a questão dos prazos que delimitam as crises políticas. Várias perguntas me ocorrem sobre a situação que vivemos hoje:
Pode o país esperar por prazos constitucionais ridículos e viver à deriva mais de dois meses com um governo limitado/de gestão que ninguém sabe muito bem o que é e o que pode fazer?
Pode o país viver à espera do (nem de propósito, dada a escolha de datas) carnaval político que se vai seguir, refém de estratégias partidárias para as quais o interesse do país vem sempre em último lugar?
Pode o presidente da Comissão Europeia dormir descansado à noite com a sensação de dever cumprido?
Pode o presidente continuar a representar o papel de árbitro impoluto numa situação em que foi um dos principais responsáveis?
E respostas:
Claro que tudo isto pode acontecer simultaneamente. Desde que o país se chame Portugal e estejamos no final do ano de 2004. Já pensaram quais vão ser os vossos desejos de Ano Novo?
PS: ver também o artigo de VPValente no mesmo jornal (UMA HISTÓRIA PORTUGUESA).
Publicado por ecos em dezembro 12, 2004 10:20 AM"Já pensaram quais vão ser os vossos desejos de Ano Novo?"
Eu já! :) Sair daqui o mais rápido possível - antes que o barco se afunde de vez...
Feliz de quem pode fazê-lo, DK. A maioria tem que encontrar forças para acreditar no futuro do país, contra todas as evidências. O que vale é que eu sou um optimista, ;-).
Afixado por: JSNovo em dezembro 12, 2004 02:47 PMÉ verdade, JS. Ser optimista é o desafio mais difícil nestas circunstâncias. Confesso que a perspectiva de poder sair do país - e, mais importante, de ter para onde ir, "out there" - é a única coisa que me dá ânimo para continuar e levar a bom termo (espero!) a complicada tarefa académica que tenho em mãos.
Mas sou inteiramente solidária para com as pessoas que não podem (ou não querem) sair de Portugal.
Ainda há uns dias me emocionei no decurso de uma conversa telefónica com um estimado professor da minha loja. Dizia-me ele que há por lá professores que estão neste momento a atravessar fases de depressão e pessimismo profundos: uma situação sem precedentes. Alguns têm optado por reformas precoces (mesmo correndo o risco de perder $), porque já não conseguem suportar o ambiente de decadência, mediocridade e desgoverno que se vive nas instituições, assim como a sensação horrível de se estar à beira de um abismo. As pessoas já não vivem: sobrevivem, simplesmente.
Nunca gostei de fugir às responsabilidades, mas no caso em apreço não vejo de facto outra solução senão sair do país - a consciência de estar cada vez mais remetida para uma espécie de exílio interno é-me insuportável.