Para quem viveu algum tempo na Holanda, é preocupante observar os acontecimentos recentes naquele país. A Holanda é, de facto, um país de tolerância. Alguns exemplos podem ajudar a compreender o nível da mesma: a junção familiar dos imigrantes é um processo normalíssimo; a votação nas eleições locais é, há muito, um direito de quem lá vive mais de um ano.
Pela tradição de tolerância, os esforços de integração das minorias são enormes, dirigidos pelo governo. No entanto, a população de origem europeia manifesta comportamentos preocupantes, como o abandono de áreas que comecem a ser habitadas por minorias, com destaque para os muçulmanos. O que leva à criação de bairros inteiros só com essas minorias, num processo de "ghetização". Verdade seja dita que muitas dessas minorias não querem, de facto, ser integradas na sociedade ideal holandesa, europeia.
Um outro facto tem a ver com a revolta surda que os holandeses de origem europeia manifestam, em privado, contra as facilidades que os sucessivos governos vão concedendo a essas minorias. A obtenção da carta de condução, por exemplo, que é muito cara e com exames muito exigentes, foi fortemente subsidiada pelo governo para jovens de origem muçulmana numa tentativa de evitar que permanecessem inactivos (por exemplo, muito poucos seguem cursos superiores).
O aparecimento de Pim Fortuijn revelou estas tendências ocultas da sociedade holandesa. Mostrou que a tradicional tolerância holandesa é uma máscara necessária à vida em comum numa sociedade tão miscigenada. Mas que não se faz sem custos. Os holandeses (europeus e integrados) vivem em estado de choque com os acontecimentos recentes, num misto de raiva e incredulidade. Provavelmente, culpam-se por não terem lido os sinais da mudança.
Num tom de esperança para o futuro, a organização social holandesa é robusta, tendo capacidade para sobreviver a uma crise destas dimensões. Espero, sinceramente, que seja verdade e não um desejo piedoso de quem, como eu, tem uma ligação inolvidável àquele país.
PS: uma outra opinião sobre o mesmo assunto pode ser lida em A Nova Holanda; no mesmo número do jornal, vem também uma visão mais global do problema: "Já Lhe Tinham Dito para Se Calar...".
Publicado por ecos em novembro 12, 2004 07:46 AMSão de facto dois artigos de grande interesse. A somar ao seu!
Afixado por: pedro guedes em novembro 14, 2004 04:42 PM