novembro 06, 2004

Ética(s)

Vivemos num mundo que nos diz, a toda a hora, que tudo nos é permitido. Se violarmos a lei, o problema resolve-se com a contratação de um bom advogado (se pudermos pagá-lo). Se quisermos violar a lei constantemente, é sempre possível encontrar um grupo de pressão que, às claras ou não, vá provocando as alterações que conduzam ao fim pretendido. Prezamos em demasia a esfera individual, pelo que reagimos fortemente a qualquer acção que interpretemos como uma violação dessa esfera. O politicamente correcto é uma doutrina difusa e adaptável, que nos vai, cada vez mais, dispensando da reflexão necessária para justificarmos, a nós mesmos, as nossas decisões.

É claro que, mais tarde ou mais cedo, esta linha de acção conduzirá a uma colisão com os direitos de outros. Mas, muitas vezes, essa consciência é apenas parcialmente assimilada, quando somos nós os outros atingidos. É quase um distúrbio de personalidade, esta leitura individualista e parcial dos direitos, liberdades e garantias.
Um exemplo comezinho é do toque de estacionamento. Se formos nós a "encostar", desde que ninguém veja (será esta condição ainda válida?), é um risquinho sem importância, pelo que lá vamos nós à nossa vida. Se é o nosso carro o "encostado", aqui del-rei, vamos já chamar a polícia, se estivermos presentes; ou então um relambório interminável, alienante de amigos e conhecidos, sobre a falta de chá de quem bate e vai embora.
Vivemos em sociedade, como pessoas únicas, com a possibilidade de fazer contribuições também únicas para a evolução comum. No entanto, alienamos esta nossa participação pelas razões mais estranhas, ou antes, pela falta de razões. Os nossos vizinhos castelhanos tem uma expressão muito particular para definir esta situação: "ir de fantasma por la vida".
Como se mede hoje o sucesso pessoal? Que caminhos escolhemos para o atingir? Acima de tudo, porque achamos que devemos atingir o sucesso tão depressa e com um esforço tão mínimo? Lembra-me a conhecida rábula do cliente que vai à livraria comprar o livro "Como enriquecer depressa" e se surpreende com a entrega simultânea pelo livreiro do "Código Penal". Até mesmo esta rábula já não desperta mais que um meio sorriso, porque o Código Penal é, cada vez mais, um ataque à nossa "liberdade" pessoal e não uma defesa colectiva. Como o Código da Estrada. Ou o pagamento de impostos.
Longe vão os tempos dos três objectivos clássicos da pessoa: plantar uma árvore, fazer um filho, escrever um livro; todas acções em que o tempo e a reflexão individual têm uma participação importante. Que sociedade queremos para o futuro, para os nossos filhos? Que ética escolhemos para guiar as nossas vidas? Estas são perguntas cujas respostas cada um de nós tem que dar individualmente, sendo que a falta de resposta é uma resposta em si mesma.

Publicado por ecos em novembro 6, 2004 10:03 AM
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