Através de uma referência feita no "Sexo dos Anjos" cheguei ao "Dano Colateral". Estive a ler com atenção os textos do autor, que usa longas argumentações, organizadas para demonstrar o seu ponto de vista. Infelizmente, não permite comentários, pelo que me remeto a fazê-los aqui.
Chamaram-me a atenção duas posições do autor na sua argumentação. A primeira relaciona-se com aproximação feita entre aborto natural e provocado. Cito:
[...] Muitas vezes é a própria natureza que se encarrega desse destino. Os abortos naturais não serão imorais pelo simples facto de serem naturais, mas dão que pensar. Mais não fosse pelo facto de haver quem seja contra o aborto por absurdamente o julgar contranatural. [...]
(in: O problema do aborto)
Partindo deste ponto, é fácil ao autor julgar imorais todos problemas sociais que se ligam a esta problemática. Serão sempre mais imorais que o aborto terapêutico. Curiosamente, o autor declara-se contra o aborto, declarando que essa não seria a sua opção. Resta saber porque acha que o que não é bom para si, o é para outros.
Uma segunda posição polémica é a seguinte:
[...] Posso agarrar numa imagem de uma cidade completamente destruída, com corpos carbonizados, outros tantos despedaçados; trata-se de uma imagem de puro terror, crueldade e miséria. Posso agarrar nessa imagem, mostrá-la aos meus alunos e dizer: vejam bem como o mundo é horrível. Porém, se depois lhes for explicado que se trata de imagens de Hiroshima, imagens dessa manhã hedionda que permitiu pôr cobro a uma guerra ainda mais nefasta, se calhar os critérios de avaliação do horror dessa imagem tornam-se diferentes. [...]
(in: Sem título)
Ou seja, a imoralidade das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki é relativa, já que contribuiu para o final da 2ª Guerra Mundial, uma imoralidade ainda maior. Uma perfeita aplicação do princípio de que os fins justificam os meios.
No fundo, os dois casos são uma demonstração da aplicação do relativismo ao processo argumentativo. Sendo tudo relativo, tudo é justificável porque não há princípios básicos a respeitar: apenas um julgamento casuístico das circunstâncias favoráveis à posição que defendemos. Poder-se-á argumentar que, ao retirar as citações do contexto, estou a ser deliberadamente injusto com o autor; escolho a luz que considero mais favorável à minha própria posição. Aceito antecipadamente a crítica. Mas a escolha que fiz das citações tem apenas como objectivo mostrar que, para mim, os textos circundantes dependem delas. Se forem retiradas, os textos não fazem sentido.
Se fui injusto na minha apreciação, a minha caixa de comentários está aberta.
(ver também a entrada do "Sexo dos Anjos" Lições do abismo, referente ao mesmo assunto)
PS (19:00): depois da publicação da entrada, apareceu mais uma de relevo no Sexo dos Anjos; também me dei conta de que a polémica anda viva já há uns dias no Letras com Garfos, começando na entrada Danos Colaterais ou a Morte de Inocentes.
Publicado por ecos em setembro 5, 2004 10:45 AMMeu caro, de facto foi injusto na sua apreciação.
A respeito de Hiroshima. É óbvio que o autor não defende Hiroshima, nem foi nada disso que ele escreveu. Leia com atenção.
O mesmo em relação à questão do aborto natural: leia com atenção.
Tem razão numa coisa: ao retirar as citações do contexto, está a ser deliberadamente injusto com o autor, até porque, ao contrário do que diz, os textos fazem sentido sem elas.
É a sua opinião, Fernando. Em relação a esta entrada e ao texto relativo no seu blogue, talvez não fosse mau que lesse a entrada da GLQL http://grandelojadoqueijolimiano.blogspot.com/2004/09/acerca-do-terrorismo.html. "Mutatits mutandis", aplica-se ao problema em questão e às posições dúbias de muita gente.
Afixado por: JSNovo em setembro 6, 2004 07:11 AM